Sistemas de água farmacêutica: como garantir conformidade e eficiência hídrica na sua planta

Sistema de água farmacêutica com osmose reversa e eletrodeionização contínua

Na indústria farmacêutica, a água não é apenas um recurso utilizado durante a produção. Dependendo da aplicação, ela pode atuar como matéria-prima, ingrediente, reactivo, veículo, solvente ou elemento crítico dos processos de limpeza e fabricação.

Por isso, projetar um sistema de água farmacêutica exige muito mais do que selecionar uma tecnologia de purificação. É necessário relacionar a qualidade da água aos requisitos regulatórios, ao processo produtivo, ao layout da instalação, aos materiais de construção, ao armazenamento, à distribuição, ao monitoramento, à qualificação, à validação e à sustentabilidade.

Ao mesmo tempo, a crescente pressão sobre a escassez dos recursos hídricos faz com que a eficiência no uso da água ganhe relevância. Por isso, o sistema deve ser planejado para operar de forma estável, com controle de perdas, monitoramento adequado e capacidade compatível com a demanda da planta com o mínimo descarte de água possível.

A resposta está em uma abordagem integrada de gestão da água, na qual conformidade, desempenho operacional e eficiência são considerados desde a etapa de projeto.

O desafio: produzir água de qualidade sem aumentar o consumo

A qualidade da água farmacêutica deve ser definida conforme sua aplicação, o processo produtivo e os requisitos regulatórios da planta.

Os sistemas farmacêuticos precisam produzir água com características adequadas à aplicação específica conforme na Pharmacopeia requerida. A qualidade necessária para uma etapa de limpeza, por exemplo, pode ser diferente daquela exigida para a fabricação de um produto ou para a produção de Água para Injetáveis, também conhecida como WFI (Water for Injection).

Uma planta pode utilizar diferentes níveis de qualidade de água para:

  • limpeza de equipamentos e áreas;
  • preparação de soluções;
  • processos produtivos;
  • laboratório;
  • formulação;
  • produção de água purificada;
  • produção de água Ultrapurificada;
  • produção de Água para Injetáveis.

A qualidade requerida deve ser definida no ponto de uso. Essa abordagem evita tanto o subdimensionamento do sistema quanto o uso de uma qualidade de água superior à necessária para determinada aplicação.

Um bom projeto deve responder, desde o início:

  • Qual qualidade de água cada processo necessita?
  • Quais requisitos regulatórios e compendiais são aplicáveis?
  • Qual é a qualidade da água de alimentação?
  • Quais tecnologias são necessárias para atingir a especificação?
  • Como serão realizados o armazenamento, a distribuição, a sanitização e o monitoramento?
  • Como o sistema pode ser dimensionado para reduzir perdas e operar de forma eficiente?

A resposta começa antes da escolha da tecnologia.

Compêndios regulatórios: o ponto de partida para o projeto

Um sistema de água farmacêutica deve ser projetado a partir da qualidade requerida no ponto de uso, e não simplesmente a partir da tecnologia disponível. 

No Brasil, a Farmacopeia Brasileira é uma referência oficial que estabelece requisitos mínimos de qualidade para insumos farmacêuticos, medicamentos e produtos para a saúde. A 8ª edição, aprovada pela Anvisa em 2026, passou a vigorar em julho do mesmo ano.

Dependendo do mercado de destino, do produto e da aplicação, também podem ser considerados compêndios internacionais, como a USP (United States Pharmacopeia), a Ph. Eur. (European Pharmacopoeia) e a BP (British Pharmacopoeia), além de requisitos de autoridades como FDA e EMA.
 

Como os compêndios influenciam o ciclo de vida do sistema

Essas referências influenciam diferentes etapas do ciclo de vida do sistema, incluindo:

  • definição dos requisitos do usuário;
  • projeto e seleção da tecnologia;
  • escolha de materiais e equipamentos;
  • qualificação;
  • validação;
  • monitoramento;
  • manutenção;
  • gestão de mudanças.

Requisitos de qualidade para água farmacêutica

As farmacopeias também podem estabelecer requisitos para matérias-primas, excipientes, substâncias ativas, produtos acabados, impurezas, contaminantes e métodos analíticos. Por isso, o projeto deve considerar não apenas a água produzida, mas também os ensaios e critérios de qualidade aplicáveis ao produto e ao processo.

Entre os principais parâmetros monitorados em sistemas de água farmacêutica estão:

  • condutividade elétrica;
  • carbono orgânico total, ou TOC;
  • endotoxinas;
  • pirogênios;
  • contagem microbiana;
  • temperatura;
  • características físico-químicas.

Para aplicações críticas, como a produção de WFI, o sistema deve atender aos requisitos compendiais e regulatórios aplicáveis, além de ser qualificado e validado conforme uma abordagem baseada em risco.

Como os requisitos regulatórios influenciam o design?

Layout, armazenamento e distribuição

Os requisitos regulatórios também impactam o design da instalação e dos equipamentos. Layout, fluxos de pessoas e materiais, seleção dos materiais de construção, drenabilidade, acessibilidade para manutenção, armazenamento, distribuição e sanitização devem ser considerados para reduzir riscos de contaminação e facilitar a qualificação do sistema.

O tanque e o loop de distribuição, por exemplo, devem ser projetados para reduzir riscos de estagnação e proliferação microbiológica. Para isso, podem ser considerados:

  • recirculação contínua, quando aplicável;
  • redução de pontos mortos;
  • drenabilidade;
  • controle de temperatura;
  • definição adequada dos pontos de uso;
  • compatibilidade com o método de sanitização;
  • instrumentação e alarmes;
  • programa de amostragem representativo.

Materiais e prevenção de contaminação

A seleção dos materiais deve levar em conta a qualidade da água, a temperatura de operação, os agentes sanitizantes, a resistência à corrosão, o acabamento superficial, a soldagem e a facilidade de inspeção e manutenção.

Materiais como aço inoxidável 316L tipo BPE são frequentemente utilizados em sistemas farmacêuticos, mas a escolha deve ser feita conforme a aplicação, a avaliação de risco e as especificações do projeto.

A prevenção de contaminações depende da integração entre projeto sanitário, materiais adequados, estratégia de sanitização, monitoramento e procedimentos de operação e manutenção.

Boas Práticas de Engenharia na seleção da tecnologia

As Boas Práticas de Engenharia ajudam a transformar requisitos regulatórios em decisões de projeto, operação e qualificação.

A seleção e a integração das tecnologias devem seguir as Boas Práticas de Engenharia, ou BPE. Essa abordagem considera os requisitos do usuário, a avaliação de riscos, o dimensionamento, a instrumentação, a automação, a sanitização, a manutenção e a qualificação do sistema. Dessa forma, a tecnologia é avaliada não apenas pelo desempenho de purificação, mas também pela sua capacidade de ser integrada, operada, monitorada e validada na instalação.

A documentação de engenharia pode incluir requisitos do usuário, especificações técnicas, fluxogramas, P&IDs e análise de riscos. As BPE ajudam a garantir que o sistema seja não apenas tecnicamente eficiente, mas também qualificável, validável e adequado à operação de rotina.

ORION*: uma solução modular para produção de água purificada

A Veolia, desenvolve soluções para a produção de água purificada, como a tecnologia ORION*, que combina abrandamento, osmose reversa e eletrodeionização contínua, ou CEDI, em uma configuração modular.

Dependendo dos requisitos da planta e da aplicação, o sistema pode incorporar recursos complementares, como sanitização por água quente.

Selo Sustantabiliade

Além do desempenho técnico, o ORION* é fabricado e projetado de acordo com as diretrizes da ISPE para água e vapor e se destaca por seu compromisso com a sustentabilidade. Esse posicionamento é representado pelo selo “A sustainable product”, associado a uma abordagem de projeto que prioriza a redução do consumo de água e energia, a diminuição do uso de produtos químicos e a seleção de materiais com potencial de reutilização e reciclagem.

Entre os benefícios apresentados estão a recuperação de até 40% do consumo de água, a redução de até 30% das emissões de CO₂ durante a operação e o potencial reciclável de 99% dos materiais utilizados. Esses atributos devem ser avaliados em conjunto com as condições específicas de cada instalação e com os objetivos ambientais da planta.

A configuração deve considerar a qualidade da água de alimentação, a vazão necessária, as condições da instalação, o armazenamento, a distribuição, a sanitização, a instrumentação e os requisitos de qualificação e validação.

Para uma comparação específica entre as tecnologias de produção de WFI, consulte o conteúdo “WFI Quente vs. WFI Frio: qual sistema faz mais sentido para sua planta farmacêutica?”

Como incorporar a eficiência hídrica ao projeto?

A eficiência hídrica pode ser considerada desde o dimensionamento e a seleção dos equipamentos. O objetivo é garantir que o sistema produza a qualidade de água necessária, na vazão adequada, sem consumo ou perdas superiores às necessidades do processo.

Entre os aspectos que podem ser avaliados estão:

  • dimensionamento conforme o perfil real de demanda;
  • redução de perdas durante partidas, paradas e sanitizações;
  • otimização dos ciclos de limpeza e operação;
  • monitoramento de vazão, pressão e consumo;
  • identificação de vazamentos e desvios de desempenho;
  • manutenção preventiva dos equipamentos;
  • adequação da qualidade da água ao uso previsto.

 

Conformidade, documentação e rastreabilidade

A rastreabilidade deve ser prevista desde o início do projeto. Requisitos do usuário, especificações, desenhos, certificados de materiais, registros de instalação, qualificação, validação, monitoramento, manutenção e gestão de mudanças devem ser documentados.

Essa documentação permite demonstrar que o sistema foi projetado, instalado, operado e mantido de acordo com os requisitos definidos.

A validação deve abranger o sistema como um todo, incluindo:

  • projeto;
  • instalação;
  • operação;
  • desempenho;
  • armazenamento;
  • distribuição;
  • sanitização;
  • monitoramento.

Dessa forma, é possível manter o controle sobre o sistema durante todo o seu ciclo de vida e avaliar o impacto de qualquer alteração sobre o estado validado.

Conclusão

Projetar sistemas de água farmacêutica exige integrar requisitos regulatórios, qualidade no ponto de uso, Boas Práticas de Engenharia, seleção tecnológica, validação e eficiência hídrica.

Uma abordagem planejada permite desenvolver sistemas mais adequados à operação da planta, com controle consistente da qualidade e oportunidades de redução de perdas e consumo de água.

"Quando a conformidade é incorporada desde o projeto, a eficiência deixa de ser apenas um objetivo operacional e passa a fazer parte da própria engenharia do sistema"
Verena Fernandes
Gerente de Desenvolvimento de Mercado, Tecnologias e Produtos, Veolia| Water Tech

Perguntas frequentes

As farmacopeias estabelecem especificações, requisitos de qualidade e métodos analíticos que ajudam a definir a qualidade da água, os parâmetros de monitoramento e os critérios de aceitação do sistema.

É o conjunto de equipamentos, tubulações, instrumentos e controles utilizado para produzir, armazenar, distribuir e monitorar água adequada a uma aplicação farmacêutica específica.

A escolha deve considerar a qualidade da água de alimentação, a qualidade necessária no ponto de uso, a capacidade do sistema, a sanitização, o monitoramento e os requisitos de qualificação e validação.

A eficiência hídrica deve ser avaliada desde o dimensionamento do sistema, considerando o perfil de demanda, as vazões necessárias, as perdas operacionais, os ciclos de sanitização, o monitoramento do consumo e a manutenção dos equipamentos.

O objetivo é garantir o desempenho necessário para cada aplicação, evitando tanto o subdimensionamento quanto o uso excessivo de água, energia e outros recursos.

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